Não foi muito divulgado e o único vídeo que conseguimos encontrar não é da melhor qualidade, mas, Conrad Ricamora, nosso querido Oliver, deu um lindo discurso de aceitação após receber uma premiação da Equality and Visibility Award na HRC (Human Rights Campaign – ou Campanha de Direitos Humanos) nesse final de semana.

Na série,  Oliver é um rapaz homossexual, assumido e portador do vírus da AIDS. Na vida real, Ricamora, também homossexual assumido, cresceu em uma pequena cidade na Florida, e passou muito tempo da sua vida tentando ser invisível, tentando esconder quem ele era de verdade.

Em seu discurso, visivelmente nervoso e muito emocionado, o ator citou Viola Davis e disse que é uma honra para ele poder estar ali e trazer visibilidade a um assunto tão importante quanto a causa LGBT, pois muitos jovens ainda vivem nesse dilema da auto-aceitação.

“(…) Quando eu estava pensando, semana passada, no que dizer, eu estava conversando com Viola Davis, a rainha dos discursos de aceitação. Ela me falou que não é falando dos seus sucessos ou de quão grande e bom você é que você consegue se conectar com as pessoas, mas, sim, quando você se mostra vulnerável, quando fala de suas batalhas pessoais diárias, é assim que se abre um espaço para que as pessoas possam se conectar com você e simpatizarem e se sentirem menos sozinhos em suas próprias batalhas. Então quero levá-los de volta ao meu passado, em uma época onde eu não tinha tudo sobre controle, onde eu não estava em um programa de televisão e ninguém sabia meu nome. Era no Sul, bem no Sul mesmo. Uma cidade pequena e, além disso, uma comunidade militar. Quando criança, eu praticava esportes competitivos e tinha um grupo de amigos homens, com os quais eu era bastante próximo. Nós passávamos todas as noites depois da escola jogando Tenis, e todo o final de semana, andávamos de bicicleta pelas florestas e passávamos por zonas de construção e lá brincávamos de pique-pega; esses caras eram meus melhores amigos, as pessoas mais próximas em toda a minha vida. E quando chegamos ao primeiro ano do Ensino Médio, alguns desses meus amigos começaram a encontrar pornografias nos quartos de seus pais ou irmãos mais velhos. E quando eu dormia na casa de alguns deles, nós assistíamos e ríamos e tudo mais, mas, principalmente, nós estávamos tentando entender o que era aquilo que estávamos assistindo. Com o passar do tempo, passei a perceber que meu foco estava mais nos homens nos vídeos do que nas mulheres, e eu queria explorar mais aquilo. Então pensei que seria uma boa ideia ir na locadora e roubar a fita que tinha homens sem camisa na capa. Era pornô gay. Era como os vídeos que eu via com meus amigos, só que só com homens. Então, eu coloquei a fita na minha mochila e tentei passar pela porta. Só que eu não consegui levantar minha mochila alto o bastante, e isso disparou o alarme, e eu fui pego por dois seguranças, que, como se já não bastasse, estudavam no mesmo colégio que eu. Agora, isso poderia ter sido uma história engraçada de infância, só que o que se sucedeu disso não foi nada engraçado. Foi traumatizante. O que se sucedeu foram pessoas gritando “viado!” para mim todos os dias, por três anos, nos corredores do colégio; pessoas ligando pra minha casa e me assustando e me ameaçando; eu tinha que ir na frente, no ônibus, do lado do motorista, pra não ser agredido. Eu almoçava na biblioteca porquê eu tinha medo de aparecer em um lugar onde as pessoas me tratavam como se eu fosse um monstro nojento e vergonhoso que deveria ser evitado. Mas o pior de tudo é que esse meu grupo de amigos, as pessoas mais importantes pra mim e que eu passava todos os dias junto a eles, me abandonou completamente. Um deles virou na minha cara e disse que não podia mais andar comigo por eu ser um “viado”. E no final do ano, outro amigo disse que eu não podia assinar o anuário e nem podia mais ir à casa dele por eu ser gay.  Eu não tinha ninguém a quem recorrer, nem mesmo minha família. Eu tinha vergonha e estava completamente sozinho. Então, eu me dissociei da minha realidade, eu me escondi numa parte sombria e solitária da minha mente. Até hoje, eu não lembro como foi meu ensino médio, eu simplesmente apaguei tudo da memória. E eu fiz isso até me mudar pra uma cidade grande. Mas, o que eu cheguei à conclusão, depois de tudo isso, é que esse evento traumatizante não foi o começo, e nem o fim. Foi um momento de merda que aconteceu, e que, até hoje, eu ainda estou me curando e me recuperando. Por que, há alguns anos atrás, enquanto eu estava na graduação, eu levei uma lâmina até o meu pulso? Por que, desde então, sempre que eu me aproximava de novos amigos ou de parceiros, ou até mesmo da família, eu iria me afastar e correr? E por que Matthew Shepard (um estudante da Universidade do Wyoming que, aos 21 anos de idade, foi torturado e assassinado perto de Laramie, Wyoming, por ser gay em 12/10/1998), Tyler Clementi (um estudante de 18 anos da Universidade Rutgers em Piscataway, Nova Jérsei, que suicidou-se pulando da Ponte George Washington, em 22 de setembro de 2010 por ter uma relação amorosa dele com um colega divulgada na internet, pelo seu colega de quarto e uma amiga), as vítimas da boate Pulse, ou de todas as outras inúmeras tragédias aconteceram? Toda essa dor e todos esses traumas causados por quê dois caras se sentiram atraídos um pelo outro? É isso?! Tudo isso aconteceu por quê tem gente que acha isso errado?! Isso precisa mudar. Nós existimos! Pessoas LGBT existem e existem desde sempre, e precisamos ser permitidos a viver normalmente em TODOS os lugares do mundo. Da Rússia até Los Angeles até o extremo Sul.  E eu não culpo as pessoas da minha cidade lá no Sul, eles estavam apenas fazendo o que lhes fora ensinado. Eu, provavelmente, teria agido do mesmo jeito porquê eu cresci no mesmo ambiente que eles. Eles eram prisioneiros dessa cultura de ódio também. Nós PRECISAMOS ensinar às crianças e aos jovens adolescentes que não é errado nos expressarmos da maneira que quisermos. Que não há problema em ser mais sensível. E precisamos ensiná-los que essa masculinidade tóxica não é um objetivo a ser alcançado. E acima de tudo, nós precisamos ensinar que todos merecem respeito, não só aqueles que partilham do mesmo gênero, ou orientação sexual, ou cor de pele que nós. Eu quero dizer que muito dessa premiação vai também para Jack Falahee, o meu parceiro de cena e Pete Nowalk, o criador de How to Get Away With Murder, por lutarem pela igualdade e pela visibilidade de cenas de sexo entre dois homens em um programa de televisão no horário nobre. E isso é um passo-à-frente: Representar o afeto e o amor e o sexo de dois homens, da mesma forma que acontece com casais heterossexuais, porque, podemos ser fabulosos e engraçados, mas somos seres sexuais como qualquer outra pessoa. Não somos só seus “melhores amigos” e nem só “seus palhaços”. Portanto, eu não aceito esse prêmio, hoje, como um homem gay orgulhoso e que  teve tudo sobre controle e que cresceu em uma cidade grande e aceptativa como Nova Iorque ou Los Angeles. Eu aceito esse prêmio como uma criança gay nervosa que cresceu no Sul, que está apenas em busca de um amigo e algum suporte, enquanto tenta encontrar tal controle. E eu quero agradecer à Equality California por ser esse suporte pra tantas pessoas que precisam. Obrigado!”

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