A algumas semanas atrás a nossa equipe leu a história do Igor Reis, de Goiânia, que estava à procura de estágio. Assim como muitos jovens brasileiros, ele não estava encontrando uma oportunidade em lugar nenhum, por isso decidiu ser ousado, soltou sua criatividade e inspirou na sua série preferida – How To Get Away With Murder. 

O resultado foi o anúncio que ilustra nossa postagem e que, sem nenhuma surpresa, tornou-se viral em questão de horas. Sabendo disso, nós conversamos com esse jovem prodígio e realizamos uma entrevista memorável e inspiradora, que além de mostrar o que uma série de televisão pode fazer na vida de uma pessoa, também exemplica o quão difícil está a busca por empregos/estágios no Brasil.

1º. – Foi um marco na televisão americana ter uma série de horário nobre da rede aberta estrelada por uma negra, intepretando uma personagem forte, destemida e muito qualificada. Você acredita que mesmo sendo um estudante da PUC e tendo um currículo sensacional, que eu tenho certeza que você tem, ser negro lhe atrapalhou em conseguir esse estágio? Ou a culpa é mesmo do desemprego?

Considero que ser negro nunca me atrapalhou, pois a minha raça é algo que me orgulha, mas com certeza deixou diversos desafios da vida maiores e mais difíceis, venho procurando estágio em um escritório de advocacia desde o final do ano passado, sem obter êxito, fato curioso visto que ao longo da universidade sempre me envolvi de maneira profunda atividades de pesquisa e extensão, tendo o êxito em realizar diversas publicações de artigos e apresentações em eventos, fazendo com que e o meu currículo (o sério) contasse com diversas qualificações. Mas das entrevistas realizadas, nunca obtive êxito, mesmo que os contratantes sempre elogiassem minhas qualificações adquiridas ao longo da minha trajetória, e dos diversos e-mails enviados quase nunca obtive resposta. Então acabei chegando a conclusão, de que o meu perfil não era o perfil procurado por escritórios de advocacia, pois fugia completamente do “PADRÃOZINHO ELITISTA” presente no mercado do direito, assim como em outras áreas, e um jovem negro, bolsista do prouni, raramente teria espaço em um dos escritórios de renome em minha cidade, situação que se reflete nas salas de aula, há 4 anos atrás, eu era um dos poucos negros do meu curso em minha faculdade, hoje com as políticas de ações afirmativas, essa situação vem se modificando e já me deparo com alguns (ainda poucos, a média de 2,3 em uma turma de 60) estudantes negros em cada sala de aula, e espero que essa situação se repita no mercado de trabalho, que cada vez mais espaço seja conquistado, e tenhamos cada vez mais Advogados, Professores Universitários e Juristas Renomados negros. Com esse sentimento de esperança, e em meio à crise, eu não desisti, procurei um meio de que os profissionais da minha área soubessem que eu estava procurando um estágio, todo mundo na minha faculdade ficou sabendo, inclusive diversos professores entraram na campanha “Estou precisando de um estágio”, e hoje estou em diversas páginas e sites da internet, e com um número bom de propostas de estágio. Acho que o meu sonho em me tornar o Wes do Brasil está se concretizando hein? (risos)

2º. – Na entrevista ao HuffPost Brasil, você afirma que “How To Get Away With Murder” é sua série favorita, mas você não contou qual seu personagem preferido. Alguém em particular que lhe inspira?

Vocês possuem dúvidas de que é a Annalise? (Viola eu te amo <3) Além de ser interpretada por essa diva, a Annalise é tudo o que eu mais sonho em ser profissionalmente, advogada e professora universitária, talvez por isso, eu tenha esse carinho enorme.

3º. – O foco do roteiro da série é direito criminal, mas de vez em quando eles relacionam certos assuntos com constitucional, família e entre outros. Você já definiu qual área seguirá carreira?

É muito difícil definir uma área sem realmente conhecer o mercado, gosto de tudo e acho que as diversas áreas do direito devem se relacionar, mas eu sonho em seguir carreira como advogado no direito empresarial (me julguem), mas também vivo uma relação de amor com o direito constitucional.

4º. – Como chegou a “How To Get Away With Murder”? Algum amigo lhe indicou? Netflix? Exibição no Sony?

Um grande amigo me indicou, assisti ao primeiro episódio e viciei.

5º. – Você é fã ou pelo menos já assistiu outra série jurídica? Se sim, qual ou quais?

Já assisti alguns episódios de Suits, mas não acompanho.

6º. – Você pode nos contar um pouquinho mais da sua história? Como tudo começou, como veio parar aqui….Acredito que temos muitos leitores que não só compartilham das suas mesmas dificuldades, mas também olham para você agora com aquele nobre sentimento de esperança

Me formei em informática por um Instituto Federal, e desde o meu ensino médio (na época do Orkut) sempre brinquei uma vez ou outra com montagens em minhas redes sociais.

Observação

Algumas semanas após realizarmos essa entrevista, meados de fevereiro, nosso jovem prodígio conseguiu o estágio que tanto desejava. E é exatamente a mensagem que nós queremos passar aqui. O Igor foi criado por mãe solteira, mas desde o início foi um garoto criativo, se tornou militante pelos direitos humanos e civis e graças ao programa do governo federal conseguiu acesso a universidade.

A faculdade de Direito lhe abriu a cabeça ainda mais aos direitos das minorias, assim como este que vos escreve, ameçados muitas vezes por uma suposta maioria incapaz de se colocar no lugar do outro. Então eu quero que você saiba de uma coisa – se esse jovem conseguiu, todos nós conseguimos por pior que o tempo que esteja, por pior que a vida esteja e por maior que as dificuldades estejam.

O Igor é exemplo para estudantes de direitos, como este que vos escreve, que a lei é mais do que um artigo ou um livro escrito por um jurista pomposo.

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<p>Catarinense, 20 anos e estudante de Direito. Trabalho e me divirto com o entretenimento desde os 10 anos de idade, cobrindo notícias, premiações, estreias e fazendo entrevistas. Meus fortes estão na indústria da TV e do cinema, seja em parâmetro nacional ou internacional. Ficou curioso? Me pague um café que teremos muito assunto para conversar.</p>